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domingo, 8 de abril de 2012

Repórter ou criativo




Há uns dias li um texto que considerava existirem dois tipos de escritores de ficção: os repórteres e os criativos.

Nunca tinha pensado no assunto por esta perspectiva, mas faz todo o sentido, pois se há pessoas que tendem a basear-se em situações que presenciaram ou viveram, outras há que preferem afastar-se de todas as experiências pessoais e explorarem o imaginário, desde o universo povoado de criaturas impossíveis até à projecção e organização de um enredo em que desenvolvem um mundo alternativo e personagens conforme lhes pareça mais apelativo. Uns absorvem inspiração da vida literal, concreta - são minuciosos na maneira como interpretam e transformam as suas vivências para uma história mais ou menos crua e realista; outros embarcam na aventura do abstracto e do faz-de-conta - são ambiciosos na forma como assumem o papel de criadores e constroem toda uma realidade ou parte dela de raiz.

É claro que nenhum escritor é puramente repórter ou criativo; contudo, acho que há sempre um estilo no qual este se sente mais confortável, a zona de segurança a partir da qual experimenta novas formas de se exprimir. No meu caso, foi desde logo, instintivamente, a criativa, se bem que ultimamente sinto cada vez mais vontade de descobrir a repórter. E vocês, qual preferem, quer como escritores ou mesmo como leitores?

Muito obrigada pelos vossos comentários! ♥

sábado, 28 de janeiro de 2012

Detecção de inconsistências e falhas no enredo




Há cerca de dois meses que estou a trabalhar numa história relativamente pequena (cerca de 6000 palavras) quando ao rever mais uma vez o enredo reparei, para meu grande espanto, que um pormenor que é fulcral para a sua resolução não era explicado nem fazia sentido. É interessante porque já tinha pensado exaustivamente em todo o enredo da história e, contudo, deixei escapar algo que agora me parece tão absurdamente óbvio. Este pormenor tem grande importância na maneira como a história se desenrola: é ele que leva a heroína a ponderar entre duas escolhas e é ele que, em última instância, justifica uma boa porção dos eventos que ocorreram antes da narração e que condicionaram a própria história. De imediato comecei a pensar em várias razões para que esse pormenor fosse válido na história e, embora ainda não esteja convencida de que consiga dar a volta a esta inconsistência, acredito que ao escrever um pouco mais conseguirei apresentar uma linha lógica.

Podem surgir inconsistências e falhas no enredo de qualquer história, por mais curta que seja. Tratam-se de pormenores que, na altura da escrita ou do planeamento são aceites incondicionalmente por nós mas que, algum tempo depois, revemos e pensamos "Como é que explico a passagem daqui para aqui?" ou "Esta transição não faz sentido e não explica...". São detalhes como estes que podem fazer a diferença para os leitores entre aceitarem e acreditarem na história ou interromperem a leitura devido à confusão ou à descrença - são detalhes que podem suscitar uma variedade de questões e com isso impedir o leitor de continuar a apreciar o livro, comprometendo a experiência da leitura.

A solução passa por pôr a história de parte para voltar a ela algum tempo depois - o suficiente para termos a certeza de que vamos reler o que escrevemos com um novo olhar ou, pelo menos, um olhar mais "fresco", descomprometido das experiências e do padrão de pensamentos que tínhamos naqueles dias em que planeámos o enredo. Rever um enredo com um certo tempo de distanciamento permite que se obtenha uma maior compreensão de todas as perspectivas sobre a qual aquela história pode ser compreendida e questionada, fornecendo informações valiosas para que se possa alterar alguns pormenores que ora explorem ora expliquem porções da história que não eram muito claras ou que não faziam sentido de todo. E é engraçado olhar para o que escrevemos no passado e confrontarmos a nossa visão crítica actual com a forma como imaginámos ou planeámos a história naquele momento.

É possível que daqui a uns posts, quando tiver a minha história pronta, conte exactamente qual foi a inconsistência que apareceu no meio da minha suposta cuidada planificação. Por enquanto, deixo um caso de uma série de livros cuja realidade e mundo aceitei durante uns bons anos e que, depois de uma exploração mais intensiva, comecei a questionar: Harry Potter. Até hoje penso que J. K. Rowling deveria ter explicado por que razão a comunidade internacional de feiticeiros não toma qualquer acção em relação ao Voldemort, por exemplo. E este é somente uma das muitas falhas que, apesar de continuar a gostar de Harry Potter, me fazem desejar que algumas partes estivessem melhor explicadas. Ainda assim, estou certa de que existem muitos mais exemplos noutros livros. :)

Desejo-vos uma boa semana!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Song of Fire and Ice e pontos de vista múltiplos



Uma das sagas de que se falou muito no ano anterior foi a incompleta A Song of Fire and Ice, que actualmente vai no seu quinto volume A Dance With Dragons. Intrigada com o entusiasmo da comunidade por estes livros e pela série que neles se baseia e que, dentro em breve, inicia a sua segunda temporada, não hesitei em colocar A Game of Thrones na minha lista de leituras. Entretanto, já tive a oportunidade de ler os quatro primeiros livros e, além de as obras não desapontarem no geral, permitiram que tomasse contacto e reflectisse sobre o modo como o autor decidiu contar a sua história: até agora, todos os livros encontram-se divididos em capítulos narrados sob o ponto de vista de uma das personagens, sendo que o número de pontos de vista diferentes em cada livro ultrapassa a dezena.

É uma história que não foca nenhuma personagem; em vez disso, uma ampla selecção delas contribui com um pouco dos eventos vistos pela sua perspectiva, alargando os horizontes de quem lê através da transmissão dos seus próprios valores, passados, ambições, localizações geográficas e personalidades muito particulares. Neste último aspecto, julgo que o autor foi brilhante: cada personagem, desde o anão Tyrion ao bastardo Jon Snow e passando por todas as outras, tem uma maneira de se expressar que é característica e que não é passível de ser confundida com nenhuma outra. A maioria são personagens extremamente ricas, pormenorizadas, completas em todas as suas dimensões.

Uma história construída com base em múltiplos e detalhados pontos de vista nunca permitirá a distinção de um único herói, de uma personagem principal. Não se pode afirmar que A Song of Fire and Ice seja a história de Daenerys, de Arya ou de Jon. Deixamos de ter um único modelo e, eventualmente, personagens em que o foco não incide mas que de alguma forma nos despertam interesse para passarmos a ter vários modelos, com um foco transitório que a todos dá um breve momento de ribalta para em seguida passar o testemunho a outro.

Considero este estilo muito interessante no sentido em que possibilita o desenvolvimento de todo um elenco de personagens, e talvez por isso a série consiga seguir tão fielmente os livros e satisfazer os fãs. Seria engraçado ver capítulos com pontos de vista de outras personagens noutros livros como, por exemplo, Hermione ou Draco em Harry Potter (se bem que os títulos dos livros deixassem de fazer tanto sentido). Por um lado, traria ao de cima personagens ignoradas ou menosprezadas pela dita personagem principal mas que poderiam muito bem trazer riqueza à história; por outro lado, seria uma refrescante lufada de ar fresco acompanhar outro ponto de vista - nota-se um elemento adicional na composição da história e isso traduz-se numa sensação de satisfação com o detalhe e profundidade da obra.

Não estou muito familiarizada com este tipo de narração noutras obras, contudo, há uns anos, comecei a escrever uma história que, salvo erro, continha cinco pontos de vista diferentes que se sucediam continuamente e que pertenciam a um grupo de amigos que cumpria uma missão. Lembro-me que um dos aspectos mais divertidos era, de facto, o passar para outra personagem e imaginar como cada um via e interpretava à sua maneira um mesmo acontecimento: um era mais fatalista, outra mais corajosa, um outro tinha sempre umas palavras de conforto, e por aí fora. Não cheguei a terminá-la, mas o seu planeamento fez-me aprender algumas coisas - escrever uma determinada história uma e outra vez mas sob o ponto de vista de personagens diferentes é uma excelente maneira de nos apercebermos do quão desenvolvida e trabalhada se encontra essa mesma personagem.

Apesar de tudo, não é, claro, um género de narração perfeito. É certo que garante a tal riqueza e diversidade, mas tanta diversidade pode, também, trazer algum cansaço e repetição. A linha temporal avança, à partida, muito mais lentamente, e isto poderá exasperar um leitor menos paciente que não está interessado no ponto de vista daquela personagem tanto quanto está ansioso por descobrir o que vai acontecer a seguir. Além disso, a técnica dos pontos de vista múltiplos faz com que o leitor ganhe invariavelmente gostos e preferências em relação a personagens específicas assim como indiferença ou deprezo em relação a outras, o que poderá significar igualmente uma leitura muito apressada nos capítulos de determinadas personagens e uma muito mais cuidada noutros. No meu caso e referindo-me novamente a A Song of Fire and Ice, tive muita dificuldade em ler os capítulos do Davos e alguns da Daenerys, por exemplo - estes últimos porque a acção era passada num local tão remoto e tão diferente da restante linha de eventos que não conseguia interessar-me por aquela perspectiva.

Para quem ainda não leu, aconselho se gostarem de uma história com algumas reviravoltas imprevisíveis, repleto de fortes personagens em constante perigo e passado num mundo inspirado na época medieval mas de tal modo bem explorado em todas as suas vertentes que ele quase é, também, uma personagem.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Relatos de um NaNoWriMo


No mês passado, um dos principais desafios a que me propus foi o NaNoWriMo, uma iniciativa que os participantes concluem com sucesso se escreverem, de raiz, um livro com um mínimo de 50000 palavras. Podem, contudo, trabalhar no esboço e planificação do seu livro antes, se assim o entenderem. Para se "ganhar" o NaNoWriMo, é feita uma validação final do número de palavras através de um contador do próprio site, para onde são copiadas as histórias; um sistema que depende inteiramente da honestidade dos participantes.

Este foi o meu segundo NaNoWriMo; já o tinha tentado pela primeira vez em 2008, alcançando o objectivo das 50000 palavras e pelo caminho explorando substancialmente uma história que actualmente ainda está numa fase de desenvolvimento. Para este NaNoWriMo não trazia quaisquer planos senão o desejo de passar para o papel a história de uma personagem em que pensava há já algum tempo: uma história em que, pura e simplesmente, escreveria tudo o que me apetecesse, com todos os clichès que daí pudessem advir. Decidi também escrever em Inglês, no que constituiria um dos grandes desafios deste NaNoWriMo, pois nunca antes me havia aventurado a escrever uma história de tamanha dimensão nesta língua.

Esta foi a sinopse que publiquei no meu perfil do NaNoWriMo:
"Improvised novel, not so much improved characters. When Eleanor Sheach takes upon herself to study the noble arts of Healing Magic, she is far from imagining the many adventures and individuals she will encounter in the way, including a Potions-expert neurotic girl, a serious hardworking blacksmith conceiling a secret and a flirtatious, wealthy swordfighter with a penchant for saving damsels in distress. New storylines blossom from every corner in this wondrous tale of humour and romance, but also of courage and loyalty."


Comecei com entusiasmo, mas cedo vieram a verificar-se os mesmos problemas que há três anos atrás: semanas preenchidas com aulas, doença, obrigações várias... houve dias em que não escrevi uma única palavra e outros em que escrevi mais de 5000. No fim, diverti-me muito com todo o enredo que ia criando na altura, como se as personagens soubessem muito bem o que iam fazer a seguir. Uma relação, em particular, surpreendeu-me, entre a minha personagem principal Eleanor e a sua melhor amiga, a tal rapariga neurótica que sabia muito de Poções - as suas conversas revelavam-se do mais cómico que havia por vezes, e eu a imaginar o que uma dizia à outra já me ria antes sequer de me pôr a escrever.

Ainda assim, as dificuldades nos meus hábitos de escrita continuaram a fazer-se sentir e, a dois dias do fim do NaNoWriMo, vi-me a braços com cerca de 10000 palavras em atraso. Voltava a ser uma situação semelhante à da minha primeira tentativa, em que me lembro de ter feito uma maratona de escrita nos últimos dias para poder chegar às 50000 palavras, e teria feito o mesmo este ano se o meu computador não tivesse aproveitado a ocasião... para avariar. Com ele foram uma colecção de ficheiros que não tinham sido guardados em mais nenhum dispositivo, incluindo o meu livro.


Quando, ao recuperar o uso do computador, me apercebi que a minha história tinha desaparecido, não fiquei demasiadamente triste. Posso reescrevê-la noutra ocasião, com mais empenho: os eventos continuam bem frescos na minha mente e até sobreviveram alguns excertos, nomeadamente aqueles que tinha em papel. Além disso, ela cumpriu o seu propósito e eu aprendi muito com este mês de Novembro. Aprendi que três qualidades são fundamentais para a conclusão de um NaNoWriMo: aproveitamento de tempo, disciplina e repressão da auto-edição.

Aproveitamento de tempo. Para se escreverem precisamente 50000 palavras em trinta dias, devem ser escritas 1667 palavras por dia. Isto pode não parecer muito, mas, dia após dia, torna-se difícil aproveitar o tempo livre para nos dedicarmos à escrita; às vezes pensamos até: "Mas que tempo livre?" A solução passa por examinar criticamente a rotina do dia-a-dia e identificar momentos em que poderíamos escrever. É importante colocar a escrita num dos primeiros lugares da lista de prioridades: deve tornar-se a actividade "base" da nossa linearidade de pensamentos, ou seja, a actividade para onde nos devemos voltar assim que outras tarefas importantes foram concretizadas e nos perguntamos o que poderemos fazer a seguir. 

De igual forma, é importante aproveitar o tempo da própria escrita, focando a atenção e não divagando para outros assuntos ou problemas. Compreendi rapidamente que a melhor maneira de escrever mais em menos tempo consistia em organizar "guerras de palavras" com a minha pupila do NaNoWriMo: combinávamos que ao fim de 15 minutos quem apresentasse o maior número número de palavras escritos nesse periodo era o vencedor dessa guerra. Eu não tinha grande noção da minha velocidade, quando escrevia levada pela história sem pensar em mais nada, portanto foi grande a surpresa quando constatei que era capaz de escrever mais de 600 palavras em 15 minutos! Se conseguisse manter o ritmo, era capaz de perfazer o total diário necessário em pouco menos de 45 minutos, o que é interessante.


Disciplina. Não basta o entusiasmo inicial; é também precisa muita determinação e persistência. Talvez, com o passar dos dias, há quem encontre uma rotina confortável e se apoie nessa rotina para escrever; eu não o consegui fazer, mas em contrapartida tentei fixar números de palavras e só deixaria de escrever quando chegasse a determinada meta. No NaNoWriMo, se não se escreve diariamente ou pelo menos com relativa frequência, é muito complicado depois recuperar dos atrasos que se acumulam como uma bola de neve. Se não é possível a aquisição de um hábito diário, então que, ao menos, não percamos de vista o objectivo final e optemos por uma estratégia que o cumpra.


Repressão da auto-edição. Do NaNoWriMo não se querem obras-primas, histórias meticulosamente trabalhadas e geniais em todos os aspectos; o resultado é, geralmente, imperfeito, confuso, diluído, desprovido de sentido. É normal ser assim. Considero o resultado como um mapa da mente do escritor, ali desenrolado e estendido para que ele possa entender os seus próprios artifícios, maneira de pensar, tendências. O livro que sai do NaNoWriMo é um esboço e um esboço apenas; assim, não faz sentido que se edite muito enquanto se escreve; haverá muito tempo para isso em Dezembro e nos meses seguintes. No NaNoWriMo, importa a quantidade: quer isto dizer que se deve escrever tudo quanto venha à cabeça e que se veja como seguimento ao que já se escreveu.

Para mim, foi difícil escrever com linearidade na primeira tentativa e acabei por saltar alguns eventos, escrevendo também diálogos que ainda não se inseriam em qualquer parte. Isto também é válido, mas para este NaNoWriMo desafiei-me a não passar à frente quaisquer partes, mesmo aquelas que me pareciam ser aborrecidas de escrever. Concluí que até as partes que previa trazerem-me tédio podiam tornar-se interessantes a qualquer momento e que o seguimento da linearidade trazia-me, a mim, maior satisfação no momento de passar a uma cena que já estava ansiosa por escrever.


No próximo post publicarei uma série de entrevistas que fiz a três participantes do NaNoWriMo deste ano. Até daqui a uns dias!